SÍNDROME PTFÓBICA

SÍNDROME PTFÓBICA

Mércio contou o acidente e a perda total do carro, menos mal, estava assegurado. Estava vivo, algumas escoriações, queixa de dor pelo corpo, nada grave. Havia atropelado um cavalo na rodovia Campinas a Mogi-Mirim. O animal apareceu do nada e teve morte instantânea.

Ele é meu vizinho, carioca, motorista de taxi, mudou-se para cá há alguns anos com a esposa Cláudia, ambos Testemunhas de Jeová.

No dia dessa conversa de tais atributos restava a de vizinho apenas.

Havia se separado de Cláudia, não estava frequentando o Reino, perdera o carro, não tinha como exercer a profissão, estava livre.

A alma carioca despertara, jamais a perdera por completo. Mas, se exacerbava. Este motivo provocava relatar o acidente alegre, sorridente, não como perdas e danos e sim um prêmio.

Mesmo as leis municipais não impediam. Continua esticando a conversa e a lavar a calçada de sua casa. A sorte o favorecia, não apareceu o fiscal da Prefeitura.

- “Não vi nada, cara. Só vi a cabeça do cavalo no parabrisa a minha frente e batemos cabeça um no outro”, contava, ria.

Mércio havia sido chamado para uma corrida até o aeroporto de Viracopos. Foi buscar um conferencista para o Congresso da Igreja Batista que se realizava na cidade. O acidente aconteceu quando voltava. Revelou
o nome do passageiro, uma personalidade, havia saído ileso. Recebi essa informação e a tratei com desprezo. Não haveria de ter importância.

Estava contrariando o sonho de ser discípulo de Gabriel Garcia Marques. Um de seus cânones, o contista não despreza o menor fato ou imagem. Sempre é possível criar uma história. As últimas notícias revelavam minha displicência imperdoável. O passageiro de Mércio era Daltan Dallagnol.

Cláudia me explicou o motivo da separação do marido com a frase: se o mundo acabar em barranco o Mércio morre encostado. Uma qualidade que me favorecia, na circunstância. Ele não se mudaria e continuava meu vizinho, pude resgatar a história do acidente. Prêmio que, raramente, acontece devo ter aprendido a lição do Gabo.

Toquei a campainha, Mércio me viu, foi logo dizendo:

- “Cara, você viu o Dallagnol? Tá enrolado...”, gargalhou.

Não podia ter melhor começo de conversa, pensei.

- “Conta de novo o acidente. Agora fiquei curioso”, disse e me calei para ouvir.

O relato é uma riqueza, deixo-o como ouvi:

“Cara, eu quero mais que aquele filho da puta se foda depois do que me fez passar. Como já te falei, a única coisa que me lembro é da cabeçada do cavalo. Saí do carro todo atordoado. O carro tinha virado um bagaço. Olho e vejo o Dallagnol ajoelhado falando “obrigado Jesus, obrigado Jesus, obrigado Jesus”. O cavalo estava morto na pista. Na batida ele subiu no carro e bateu com a cabeça no parabrisa. Vi a cara dele chegar e bater na minha. Logo chegou dois ou três carros da Polícia Rodoviária. Os ‘polícias’ quando viram que era o Dallagnol passaram a tirar selfies abraçado com ele. Um deles falou que o acidente era obra de petista. Que algum petista tinha tocado o cavalo na pista para provocar o acidente. Era um ato terrorista. O Dallagnol ouviu aquela conversa veio pra cima de mim. Eu tava todo dolorido ele não quis nem saber, começou o interrogatório. Ali mesmo na rodovia, cara. Pediu meus documentos e anotou. Queria saber se eu era petista. Se tinha algum amigo petista. Se havia conversado com algum deles naquele dia. Cara, tantas perguntas. Falei que não tinha partido. Que não estava ligado a política ou partido algum. Ele não acreditava, cara. Queria que eu desse uma explicação pelo acidente. Tive que jurar que não era petista. Jurei, cara, jurei. Eu tava fodido, isso sim, e ele não via, cara. Não importância alguma. Filho da puta desejo mais que ele se exploda agora”